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Materiais e Técnicas

Estrutura de Telhado: Madeira, Metálica e Como Dimensionar

Estrutura de telhado em obra: tesouras de madeira montadas vencendo grande vão livre, vista interna

A Escolha que Define Metade do Custo do Telhado

Cliente queria telhado de quatro águas. O projetista especificou tesoura de madeira leve, com seção tirada de tabela velha. Veio o primeiro vendaval forte.

Caibros torcendo. Telhas voando. Cumeeira infiltrando. A obra parou para refazer o madeiramento inteiro — custo dobrado, prazo perdido.

A estrutura de telhado é o esqueleto que sustenta a cobertura. Define carga máxima, vão livre, durabilidade e até a forma do telhado. Erro aqui ecoa por décadas.

Neste guia: os 4 elementos básicos, comparativo entre madeira, metálica e concreto, normas NBR 7190 e NBR 8800, inclinação por tipo de telha, erros de execução e dimensionamento passo a passo.

É o mesmo critério que arquitetos e engenheiros aplicam para fechar projeto sem voltar atrás.

Os 4 Elementos Básicos: Caibro, Terça, Tesoura e Ripa

Telhado é um sistema em quatro camadas. Cada peça tem função clara — confundir gera erro de orçamento e de execução.

Diagrama 3D de tesoura de telhado com pendural, linha, pernas e asnas numeradas
Anatomia da tesoura: 1) pendural, 2) linha (banzo inferior), 3) pernas, 4) asnas (diagonais). Fonte: Wikimedia Commons.

A tesoura é uma "viga em forma de A invertida que distribui o peso do telhado para as paredes". É o pórtico triangular que vence o vão livre da edificação.

A terça é uma "viga horizontal apoiada entre tesouras, no sentido cumeeira-beiral". Funciona como espinha dorsal do plano da água, recebendo a carga dos caibros.

O caibro é a peça inclinada que apoia nas terças e segue o sentido da inclinação. Espaçamento típico: 50 a 70 cm entre eixos.

A ripa é o sarrafo horizontal pregado sobre os caibros. É nela que a telha encosta — o espaçamento entre ripas (chamado "galgo") sai da ficha técnica do fabricante.

Sem tesoura, a carga não se distribui. Sem terça, o caibro flexa. Sem caibro, a ripa cai. Sem ripa, a telha não fixa. Cada camada depende da anterior.

Em telhados pequenos (até 5 m de vão), o sistema pode dispensar a tesoura, apoiando as terças direto nas paredes ou em pilaretes. Em vãos maiores, a tesoura é obrigatória.

Madeira, Metálica e Concreto: Vantagens e Quando Usar

A escolha do material da estrutura depende de quatro variáveis: vão livre, carga, custo e tempo de obra. Cada sistema vence em um cenário específico.

Critério Madeira Metálica Concreto
Vão livre econômico Até 12 m (tesoura composta) 5 m a 60 m (treliça) Até 8 m (viga); maior com protendido
Custo (R$/m² projeção) R$ 50-110 R$ 80-180 R$ 120-250
Peso próprio 15-25 kg/m² 15-35 kg/m² 200-350 kg/m²
Velocidade de montagem Média (carpintaria) Alta (peças pré-fabricadas) Baixa (forma + cura)
Durabilidade 30-50 anos (tratada) 50+ anos (galvanizada) 50+ anos
Manutenção Anticupim periódico Pintura anticorrosão Mínima
Norma de cálculo ABNT NBR 7190 ABNT NBR 8800 ABNT NBR 6118

A madeira é o sistema padrão em casas, sobrados e edifícios baixos. Custo acessível, boa absorção de variação térmica e tradição de mão de obra em todo o Brasil.

A metálica domina galpões industriais, ginásios, escolas e edifícios com vão livre acima de 12 m. Peças pré-fabricadas chegam prontas; montagem em dias.

Equipe instalando chapas metálicas trapezoidais sobre estrutura de telhado em obra de galpão
Cobertura metálica em obra: chapa trapezoidal sobre estrutura primária. Foto: Seabees / Wikimedia Commons.

O concreto armado é exceção em telhado — entra quando a cobertura também é piso transitável (laje impermeabilizada) ou em obras com cargas excepcionais, como hospitais e indústrias químicas.

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Tipos de Tesouras: Pratt, Howe, Belga, em A e Treliçada

"Tesoura" é o nome genérico do pórtico triangular. Existem várias configurações geométricas — cada uma otimizada para um vão e um carregamento.

  • Tesoura em A (king post): a mais simples. Duas pernas, uma linha e um pendural central. Atende vãos até 6 m com carga leve (telha cerâmica em residências).
  • Tesoura em A com asnas (queen post): duas pernas, duas pernilhas e duas asnas diagonais. Vence vãos de 6 a 9 m, usada em sobrados e galpões pequenos.
  • Pratt: diagonais inclinadas no sentido da carga, montantes verticais. Trabalha com diagonais tracionadas — econômica em aço, vence vãos de 12 a 30 m.
  • Howe: espelho da Pratt; diagonais tracionadas em aço e montantes comprimidos. Boa para estruturas mistas (madeira + tirantes metálicos).
  • Belga (Fink): diagonais em "W" repetido. Ótima para telhados de média inclinação, distribui carga uniforme em vãos de 8 a 24 m.
  • Treliçada (warren ou space frame): diagonais alternadas formando triângulos contínuos. Eficiente em aço para grandes vãos — ginásios, hangares, terminais.

A escolha entre elas combina vão, carga, estética e custo de fabricação. Em casas até 8 m, a tesoura em A ou com asnas resolve. Em galpões acima de 15 m, Pratt e Belga lideram.

NBR 8800 e NBR 7190: O que Cada Norma Exige

Toda estrutura de telhado projetada no Brasil precisa atender a uma norma da ABNT. Duas são centrais: a NBR 7190 (madeira) e a NBR 8800 (aço).

NBR 7190 — Projeto de estruturas de madeira:

  • Define classes de resistência das madeiras nativas e de reflorestamento, das C20 às C60 (em MPa).
  • Estabelece coeficientes para combinação de cargas, considerando umidade, duração da ação e classes de uso.
  • Exige tratamento preservativo (CCA ou CCB) em classe 3 e 4 — peças expostas a intempérie ou enterradas.
  • Determina critérios para nós, emendas, ligações por pregos, parafusos e cavilhas.

NBR 8800 — Projeto de estruturas de aço e mistas:

  • Aplica método dos estados-limites: avalia resistência última e deformação em serviço.
  • Define perfis padronizados (I, U, L, tubular, treliçado) e suas propriedades geométricas.
  • Trata da estabilidade global e local: flambagem, instabilidade lateral, contraventamento obrigatório.
  • Especifica proteção contra corrosão (galvanização ou pintura) e contra incêndio.

Junto delas, a NBR 6120 rege as cargas atuantes (peso próprio, sobrecarga de manutenção, ações variáveis), e a NBR 6123 trata da carga de vento — crítica em telhados, especialmente em regiões litorâneas.

Inclinação Correta: A Regra que Evita Infiltração

Inclinação errada é a causa número um de infiltração em telhado novo. A regra é simples: cada tipo de telha tem uma inclinação mínima definida pelo fabricante e pela norma.

Tipo de Telha Inclinação Mínima Equivalente em Graus Observação Técnica
Cerâmica capa-canal (colonial) 30% ≈16,7° Em chuvas intensas, 35-45%
Cerâmica romana 25% ≈14° Encaixe duplo melhora vedação
Cerâmica portuguesa 20% ≈11,3° Peça em S, menos risco
Cerâmica francesa 15% ≈8,5° Plana com encaixe lateral
Fibrocimento ondulada 6 mm 10% ≈5,7° Cobrimento longitudinal 14 cm
Fibrocimento estrutural 5% ≈2,9° Conferir manual do fabricante
Metálica trapezoidal 5-8% ≈2,9-4,6° Termoacústica = 5% mínimo
Metálica zipada (standing seam) 3% ≈1,7° Junta soldada/dobrada

Fonte: ABNT NBR 13858-2 (cerâmica), NBR 7196 (fibrocimento) e fichas técnicas de fabricantes (Eternit, Brasilit, Isoeste, Ananda Metais).

Cálculo prático: divida a altura da cumeeira (h) pela metade do vão (L/2) e multiplique por 100. Cumeeira a 1,80 m com vão de 6 m → 1,80 ÷ 3,00 × 100 = 60% de inclinação.

Erros de Execução que Arrasam o Telhado

Mais de 70% dos problemas em telhado vêm da execução, não do projeto (estimativa baseada em laudos técnicos de patologias da construção). Os erros se repetem em obras de todo porte.

  • Caibros sem proteção contra umidade: madeira sem tratamento ou apoiada em contato direto com alvenaria úmida apodrece em 5 a 8 anos. Use eucalipto autoclavado e isole o apoio com chapa metálica.
  • Contraventamento ausente entre tesouras: tesouras isoladas trabalham como cartas de baralho. Diagonais e tirantes entre elas estabilizam o conjunto contra vento e desaprumo.
  • Calha mal dimensionada ou inexistente: calha estreita transborda em chuva forte e molha frechais. Use a NBR 10844 para dimensionar — área de captação × intensidade pluviométrica local.
  • Beiral curto demais: beirais menores que 60 cm deixam chuva bater na fachada e infiltrar pela platibanda. Em fachadas expostas a vento dominante, projete 80 cm a 1 m.
  • Cumeeira sem vedação correta: argamassa rígida na cumeeira trinca em 2 a 3 anos. Use argamassa flexível ou fita asfáltica autoadesiva específica para telhado.
  • Ripamento fora do galgo: ripa pregada sem conferir cobrimento longitudinal da telha gera linhas tortas, peças mal encaixadas e ponto de infiltração.
Detalhe de fechamento de cumeeira metálica sobre telhas de ardósia em telhado executado
Cumeeira corretamente capeada: peça metálica contínua veda a junta entre as duas águas. Foto: Wikimedia Commons.

Cada um desses erros custa entre R$ 2.000 e R$ 20.000 para corrigir depois — quando aparecem manchas no forro, mofo na laje ou cupim no madeiramento (estimativa de mercado, 2026).

Como Dimensionar Tesoura de Madeira Passo a Passo

O pré-dimensionamento ajuda a fechar projeto e estimar custo. O cálculo final é sempre de engenheiro estrutural com ART — mas o arquiteto precisa entender o método para não especificar absurdos.

Detalhe de tesouras de madeira com chapas metálicas galvanizadas em obra de telhado
Tesouras pré-fabricadas em obra: chapas galvanizadas nas conexões aceleram a montagem.
  1. Medir o vão a vencer: distância entre apoios (paredes ou pilares). Até 6 m, tesoura simples (king post). De 6 a 9 m, tesoura com asnas. Acima de 9 m, treliçada ou estrutura metálica.
  2. Calcular carga total atuante: peso próprio do madeiramento (≈15 kg/m²), peso da telha (cerâmica 45-70 kg/m², fibrocimento 18 kg/m², metálica 5-8 kg/m²) e sobrecarga de manutenção de 0,5 kN/m² (NBR 6120). Some carga de vento da NBR 6123 conforme região.
  3. Definir espaçamento entre tesouras: 3 m é o padrão residencial; 3,5 m a 4,5 m em galpões com terças maiores. Espaçamento maior reduz número de tesouras, mas exige terças mais robustas.
  4. Pré-dimensionar perna e linha: para vão de 6 m e telha cerâmica, perna 6×16 cm e linha 6×12 cm em peroba ou eucalipto tratado costumam atender. Para vãos maiores, suba a seção e considere madeira laminada colada.
  5. Verificar a flecha (deformação): flecha máxima admitida no centro do vão é L/200 — vão de 6 m permite até 3 cm. Se o cálculo der mais, aumente seção ou reduza espaçamento.
  6. Validar com engenheiro calculista: projeto executivo de cobertura sempre passa por engenheiro responsável técnico com ART registrada no CREA. Estrutura sem ART é risco legal e técnico — não economize aqui.

Para vãos acima de 8 m, telhados com piso sob a cobertura, regiões de vento extremo ou cargas especiais (placas solares, equipamento de ar pesado), o pré-dimensionamento não basta.

Nesses casos, exige projeto estrutural completo desde o início.

Conclusão

A estrutura de telhado decide metade do custo da cobertura — e quase 100% da durabilidade.

Madeira para vãos curtos e residências; metálica para grandes vãos e galpões; concreto só em situações específicas. Cada uma tem norma própria: NBR 7190, NBR 8800 e NBR 6118.

O caminho seguro: definir tipo da telha → calcular inclinação mínima → escolher tesoura compatível com o vão → contratar engenheiro com ART. Sem atalhos.

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Perguntas Frequentes

Qual a diferença entre tesoura, terça, caibro e ripa?

Tesoura é o pórtico triangular que sustenta o telhado, vencendo o vão entre paredes.

Terças são vigas horizontais apoiadas sobre as tesouras, no sentido cumeeira-beiral.

Caibros são peças inclinadas que apoiam nas terças e recebem o ripamento.

Ripas são sarrafos horizontais sobre os caibros, onde as telhas são assentadas.

Madeira ou metálica: qual estrutura escolher?

Madeira é mais barata em vãos até 8 m e em obras residenciais. A NBR 7190 rege o dimensionamento.

Metálica vence em vãos acima de 12 m, em galpões e em coberturas grandes. A norma é a NBR 8800.

Concreto entra em casos específicos: lajes-piso transitáveis ou cargas extremas.

Qual a inclinação mínima do telhado por tipo de telha?

Telha cerâmica capa-canal: 30% (≈16,7°). Romana: 25%. Portuguesa: 20%. Francesa: 15%.

Fibrocimento ondulada (6 mm): 10% (≈5,7°). Fibrocimento estrutural: 5%.

Metálica trapezoidal/zipada: 5% a 8%. Sempre confirme com a ficha técnica do fabricante.

Como saber se a tesoura está bem dimensionada?

Olhe a flecha máxima: para telhado residencial, não pode passar de L/200 (vão dividido por 200).

Verifique se há contraventamento entre tesouras — sem ele, qualquer vendaval derruba o conjunto.

Observe nós e ligações: chapas metálicas, parafusos estruturais e pregos corretos por nó.

Quanto custa uma estrutura de telhado completa?

Em 2026, madeiramento residencial fica entre R$ 50 e R$ 110 por m² de projeção horizontal.

Treliça metálica leve em galpão custa de R$ 80 a R$ 180 por m², incluindo terças e contraventamento.

O valor varia conforme vão, espécie de madeira e tipo de aço usado.

LF

Arq. Lucas Ferreira

Arquiteto e Urbanista especializado em tecnologia da construção, sistemas de cobertura e detalhamento construtivo. Conteúdo revisado e atualizado pela equipe editorial do Arqpedia.