A Escolha que Define Metade do Custo do Telhado
Cliente queria telhado de quatro águas. O projetista especificou tesoura de madeira leve, com seção tirada de tabela velha. Veio o primeiro vendaval forte.
Caibros torcendo. Telhas voando. Cumeeira infiltrando. A obra parou para refazer o madeiramento inteiro — custo dobrado, prazo perdido.
A estrutura de telhado é o esqueleto que sustenta a cobertura. Define carga máxima, vão livre, durabilidade e até a forma do telhado. Erro aqui ecoa por décadas.
Neste guia: os 4 elementos básicos, comparativo entre madeira, metálica e concreto, normas NBR 7190 e NBR 8800, inclinação por tipo de telha, erros de execução e dimensionamento passo a passo.
É o mesmo critério que arquitetos e engenheiros aplicam para fechar projeto sem voltar atrás.
Os 4 Elementos Básicos: Caibro, Terça, Tesoura e Ripa
Telhado é um sistema em quatro camadas. Cada peça tem função clara — confundir gera erro de orçamento e de execução.
A tesoura é uma "viga em forma de A invertida que distribui o peso do telhado para as paredes". É o pórtico triangular que vence o vão livre da edificação.
A terça é uma "viga horizontal apoiada entre tesouras, no sentido cumeeira-beiral". Funciona como espinha dorsal do plano da água, recebendo a carga dos caibros.
O caibro é a peça inclinada que apoia nas terças e segue o sentido da inclinação. Espaçamento típico: 50 a 70 cm entre eixos.
A ripa é o sarrafo horizontal pregado sobre os caibros. É nela que a telha encosta — o espaçamento entre ripas (chamado "galgo") sai da ficha técnica do fabricante.
Sem tesoura, a carga não se distribui. Sem terça, o caibro flexa. Sem caibro, a ripa cai. Sem ripa, a telha não fixa. Cada camada depende da anterior.
Em telhados pequenos (até 5 m de vão), o sistema pode dispensar a tesoura, apoiando as terças direto nas paredes ou em pilaretes. Em vãos maiores, a tesoura é obrigatória.
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Madeira, Metálica e Concreto: Vantagens e Quando Usar
A escolha do material da estrutura depende de quatro variáveis: vão livre, carga, custo e tempo de obra. Cada sistema vence em um cenário específico.
| Critério | Madeira | Metálica | Concreto |
|---|---|---|---|
| Vão livre econômico | Até 12 m (tesoura composta) | 5 m a 60 m (treliça) | Até 8 m (viga); maior com protendido |
| Custo (R$/m² projeção) | R$ 50-110 | R$ 80-180 | R$ 120-250 |
| Peso próprio | 15-25 kg/m² | 15-35 kg/m² | 200-350 kg/m² |
| Velocidade de montagem | Média (carpintaria) | Alta (peças pré-fabricadas) | Baixa (forma + cura) |
| Durabilidade | 30-50 anos (tratada) | 50+ anos (galvanizada) | 50+ anos |
| Manutenção | Anticupim periódico | Pintura anticorrosão | Mínima |
| Norma de cálculo | ABNT NBR 7190 | ABNT NBR 8800 | ABNT NBR 6118 |
A madeira é o sistema padrão em casas, sobrados e edifícios baixos. Custo acessível, boa absorção de variação térmica e tradição de mão de obra em todo o Brasil.
A metálica domina galpões industriais, ginásios, escolas e edifícios com vão livre acima de 12 m. Peças pré-fabricadas chegam prontas; montagem em dias.
O concreto armado é exceção em telhado — entra quando a cobertura também é piso transitável (laje impermeabilizada) ou em obras com cargas excepcionais, como hospitais e indústrias químicas.
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Tipos de Tesouras: Pratt, Howe, Belga, em A e Treliçada
"Tesoura" é o nome genérico do pórtico triangular. Existem várias configurações geométricas — cada uma otimizada para um vão e um carregamento.
- Tesoura em A (king post): a mais simples. Duas pernas, uma linha e um pendural central. Atende vãos até 6 m com carga leve (telha cerâmica em residências).
- Tesoura em A com asnas (queen post): duas pernas, duas pernilhas e duas asnas diagonais. Vence vãos de 6 a 9 m, usada em sobrados e galpões pequenos.
- Pratt: diagonais inclinadas no sentido da carga, montantes verticais. Trabalha com diagonais tracionadas — econômica em aço, vence vãos de 12 a 30 m.
- Howe: espelho da Pratt; diagonais tracionadas em aço e montantes comprimidos. Boa para estruturas mistas (madeira + tirantes metálicos).
- Belga (Fink): diagonais em "W" repetido. Ótima para telhados de média inclinação, distribui carga uniforme em vãos de 8 a 24 m.
- Treliçada (warren ou space frame): diagonais alternadas formando triângulos contínuos. Eficiente em aço para grandes vãos — ginásios, hangares, terminais.
A escolha entre elas combina vão, carga, estética e custo de fabricação. Em casas até 8 m, a tesoura em A ou com asnas resolve. Em galpões acima de 15 m, Pratt e Belga lideram.
NBR 8800 e NBR 7190: O que Cada Norma Exige
Toda estrutura de telhado projetada no Brasil precisa atender a uma norma da ABNT. Duas são centrais: a NBR 7190 (madeira) e a NBR 8800 (aço).
NBR 7190 — Projeto de estruturas de madeira:
- Define classes de resistência das madeiras nativas e de reflorestamento, das C20 às C60 (em MPa).
- Estabelece coeficientes para combinação de cargas, considerando umidade, duração da ação e classes de uso.
- Exige tratamento preservativo (CCA ou CCB) em classe 3 e 4 — peças expostas a intempérie ou enterradas.
- Determina critérios para nós, emendas, ligações por pregos, parafusos e cavilhas.
NBR 8800 — Projeto de estruturas de aço e mistas:
- Aplica método dos estados-limites: avalia resistência última e deformação em serviço.
- Define perfis padronizados (I, U, L, tubular, treliçado) e suas propriedades geométricas.
- Trata da estabilidade global e local: flambagem, instabilidade lateral, contraventamento obrigatório.
- Especifica proteção contra corrosão (galvanização ou pintura) e contra incêndio.
Junto delas, a NBR 6120 rege as cargas atuantes (peso próprio, sobrecarga de manutenção, ações variáveis), e a NBR 6123 trata da carga de vento — crítica em telhados, especialmente em regiões litorâneas.
Inclinação Correta: A Regra que Evita Infiltração
Inclinação errada é a causa número um de infiltração em telhado novo. A regra é simples: cada tipo de telha tem uma inclinação mínima definida pelo fabricante e pela norma.
| Tipo de Telha | Inclinação Mínima | Equivalente em Graus | Observação Técnica |
|---|---|---|---|
| Cerâmica capa-canal (colonial) | 30% | ≈16,7° | Em chuvas intensas, 35-45% |
| Cerâmica romana | 25% | ≈14° | Encaixe duplo melhora vedação |
| Cerâmica portuguesa | 20% | ≈11,3° | Peça em S, menos risco |
| Cerâmica francesa | 15% | ≈8,5° | Plana com encaixe lateral |
| Fibrocimento ondulada 6 mm | 10% | ≈5,7° | Cobrimento longitudinal 14 cm |
| Fibrocimento estrutural | 5% | ≈2,9° | Conferir manual do fabricante |
| Metálica trapezoidal | 5-8% | ≈2,9-4,6° | Termoacústica = 5% mínimo |
| Metálica zipada (standing seam) | 3% | ≈1,7° | Junta soldada/dobrada |
Fonte: ABNT NBR 13858-2 (cerâmica), NBR 7196 (fibrocimento) e fichas técnicas de fabricantes (Eternit, Brasilit, Isoeste, Ananda Metais).
Cálculo prático: divida a altura da cumeeira (h) pela metade do vão (L/2) e multiplique por 100. Cumeeira a 1,80 m com vão de 6 m → 1,80 ÷ 3,00 × 100 = 60% de inclinação.
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Erros de Execução que Arrasam o Telhado
Mais de 70% dos problemas em telhado vêm da execução, não do projeto (estimativa baseada em laudos técnicos de patologias da construção). Os erros se repetem em obras de todo porte.
- Caibros sem proteção contra umidade: madeira sem tratamento ou apoiada em contato direto com alvenaria úmida apodrece em 5 a 8 anos. Use eucalipto autoclavado e isole o apoio com chapa metálica.
- Contraventamento ausente entre tesouras: tesouras isoladas trabalham como cartas de baralho. Diagonais e tirantes entre elas estabilizam o conjunto contra vento e desaprumo.
- Calha mal dimensionada ou inexistente: calha estreita transborda em chuva forte e molha frechais. Use a NBR 10844 para dimensionar — área de captação × intensidade pluviométrica local.
- Beiral curto demais: beirais menores que 60 cm deixam chuva bater na fachada e infiltrar pela platibanda. Em fachadas expostas a vento dominante, projete 80 cm a 1 m.
- Cumeeira sem vedação correta: argamassa rígida na cumeeira trinca em 2 a 3 anos. Use argamassa flexível ou fita asfáltica autoadesiva específica para telhado.
- Ripamento fora do galgo: ripa pregada sem conferir cobrimento longitudinal da telha gera linhas tortas, peças mal encaixadas e ponto de infiltração.
Cada um desses erros custa entre R$ 2.000 e R$ 20.000 para corrigir depois — quando aparecem manchas no forro, mofo na laje ou cupim no madeiramento (estimativa de mercado, 2026).
Como Dimensionar Tesoura de Madeira Passo a Passo
O pré-dimensionamento ajuda a fechar projeto e estimar custo. O cálculo final é sempre de engenheiro estrutural com ART — mas o arquiteto precisa entender o método para não especificar absurdos.
- Medir o vão a vencer: distância entre apoios (paredes ou pilares). Até 6 m, tesoura simples (king post). De 6 a 9 m, tesoura com asnas. Acima de 9 m, treliçada ou estrutura metálica.
- Calcular carga total atuante: peso próprio do madeiramento (≈15 kg/m²), peso da telha (cerâmica 45-70 kg/m², fibrocimento 18 kg/m², metálica 5-8 kg/m²) e sobrecarga de manutenção de 0,5 kN/m² (NBR 6120). Some carga de vento da NBR 6123 conforme região.
- Definir espaçamento entre tesouras: 3 m é o padrão residencial; 3,5 m a 4,5 m em galpões com terças maiores. Espaçamento maior reduz número de tesouras, mas exige terças mais robustas.
- Pré-dimensionar perna e linha: para vão de 6 m e telha cerâmica, perna 6×16 cm e linha 6×12 cm em peroba ou eucalipto tratado costumam atender. Para vãos maiores, suba a seção e considere madeira laminada colada.
- Verificar a flecha (deformação): flecha máxima admitida no centro do vão é L/200 — vão de 6 m permite até 3 cm. Se o cálculo der mais, aumente seção ou reduza espaçamento.
- Validar com engenheiro calculista: projeto executivo de cobertura sempre passa por engenheiro responsável técnico com ART registrada no CREA. Estrutura sem ART é risco legal e técnico — não economize aqui.
Para vãos acima de 8 m, telhados com piso sob a cobertura, regiões de vento extremo ou cargas especiais (placas solares, equipamento de ar pesado), o pré-dimensionamento não basta.
Nesses casos, exige projeto estrutural completo desde o início.
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